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>> Artigos [ Salas de Espectáculos: Tragédia em 3 actos ] Artigo de opinião publicado na architécti nº 49, Janeiro de 1999   A "Caixa Mágica" Muito antes da televisão existir ou ser sequer sonhada, já as salas de teatro eram a verdadeira "caixa mágica". Os Teatros à italiana, de cena contraposta com caixa de palco (como são os casos do Teatro de São Carlos, o Teatro de São João, o Teatro de D. Maria ou o Teatro Trindade, todos construídos entre 1790 e 1870) dispunham de complexos mecanismos cénicos, tão rudimentares quanto engenhosos, que na sombra faziam aparecer e desaparecer cenários e personagens, convidando o público a viajar no espaço e no tempo. Muito antes dos computadores multimédia existirem ou serem sequer sonhados, já no palco os actores interagiam com o público. Os teatros levavam à cena uma "realidade virtual" efectivamente tridimensional, cheia de artifícios e efeitos especiais, cor, música e mesmo cheiro. A Ópera, a "arte total", levava à cena a pintura, a escultura, a música, a literatura, o teatro e arquitectura — as seis artes de então. 1º Acto: O Cine-Teatro Nos anos 20, graças ao surgimento da sétima arte — a primeira que era realmente rentável — as salas de espectáculo começam a proliferar por todo país. Nos anos 40-50 surge o "Cine-Teatro": salas de cena contraposta, normalmente com caixa de palco, mas cujo móbil era o cinema. Os mecanismos cénicos são então remetidos para segundo plano, em detrimento de um bom ecrã e um bom projector de cinema, fazendo com que o palco perca progressivamente o seu potencial mágico. Implantadas em cidades e vilas que não tinham qualquer tradição teatral, a maior parte das vezes os únicos espectáculos que levam à cena — além do cinema — são peças de Teatro de Revista (que cumpriam um importante papel de crítica velada ao Estado Novo), que partindo de Lisboa fazem digressões por todo país. 2º acto : A Televisão e a Revolução O aparecimento da televisão e a sua cada vez maior implantação em Portugal (sobretudo a partir do momento em que surge a emissão a cores) provoca uma progressiva diminuição do público dos cinemas, levando a que os Cine-Teatros percam a sua maior fonte de receitas. A tragédia, que nos palcos não deveria passar de "ilusão", assume nas salas de espectáculo de todo o país, infelizmente, um carácter demasiado "real". Por todo país fecham salas de espectáculo. Algumas tornam-se armazéns de todo tipo de lixo camarário, outras são simplesmente deixadas ao abandono, degradando-se com o passar dos anos. Com o 25 de Abril e a liberdade de imprensa, as peças de Teatro de Revista começam gradualmente a perder um público até então fiel, o que veio tornar ainda mais difícil rentabilizar as salas de espectáculos. O período conturbado que então se vive vem perturbar a programação dos teatros apoiados pelo estado. Simultaneamente surgem múltiplos grupos de teatro de intervenção, a maior parte dos quais pequenos e marginais, sem capacidade de gestão de grandes salas. 3º acto: A Febre das Salas de Espectáculos Com a estabilização económica e política que começa no final da década de 80, e com a entrada de Portugal para a CEE, iniciou-se um novo ciclo para as salas de espectáculos do país. Há mais disponibilidade e sobretudo mais dinheiro. Em 1993 é inaugurado o Centro de Espectáculos do Centro Cultural de Belém e em 1994 Lisboa é Capital Europeia da Cultura (para a qual foram feitas algumas obras de beneficiação em teatros). Realiza-se a Expo ´98 (para a qual foi construído o Teatro Camões) assistindo-se a uma invulgar actividade cultural. O IPAE — Instituto Português das Artes do Espectáculo, lança um ambicioso e louvável programa de criação de uma rede nacional de salas de espectáculos, apoiando a recuperação de salas por todo o país. Qual Fénix, as "artes do espectáculo" renascem das cinzas. Surge então a Febre das Salas de Espectáculos. Não há Câmara Municipal, Universidade, Junta de Freguesia ou grande empresa que não queira ter o seu auditório. Por todo lado se recupera ou constrói. Aquilo que sem dúvida é positivo — recuperar e construir — depressa assume contornos nefastos. O comum dos mortais apenas conhece o lado "real" dos teatros, o lado do público, desconhecendo por completo o lado tecnicamente complexo que se esconde por trás do proscénio, que torna a ilusão possível. Os promotores — como comuns mortais que são — numa atitude um tanto novo-rica querem salas "bonitas", preferencialmente com muitos mármores e madeiras, com cadeiras de aspecto confortável e luxuoso e muitas lâmpadas de halogéneo espalhadas por tecto e paredes (como estão habituados a ver nas lojas "finas"). Junte-se a isto uma cortina bonita, algumas mesas para congressos (porque a maior parte das vezes os políticos só vão aos auditório na altura dos congressos) e um salão luxuoso (para os beberetes) e temos uma óptima sala de espectáculos. Mas o que é certo é que o público não acorre às salas de espectáculos para ver a sala ("bonita", como já se disse) ou para usufruir dos beberetes (que são à porta fechada). Acorre sim para ver os espectáculos. E, para que estes sejam bons, necessitam de boas condições técnicas que permitam ao palco ser a "caixa mágica", atrás da qual tudo é possível. A total falta de conhecimento cénico da maior parte dos projectistas e promotores dá origem a absurdos. As artes e técnicas cénicas, perdidas com o passar dos anos, são em absoluto ignoradas. Os projectos são feitos, na melhor das hipóteses a partir do "Arte de Projectar em Arquitectura" de Neufert. No pior dos casos, os projectistas recorrem ao apoio de empresas instaladoras — cada qual com a sua sentença — cujo critério é usualmente vender o equipamento que produzem, preferencialmente aquele que é absolutamente estandardizado e rápido de instalar, pouco importando a sua adequação à sala em questão. Para abreviar o processo (uma vez que uma das características da febre é a sofreguidão) organizam-se concursos de concepção/construção. Sendo o custo total da obra um critério determinante, os projectos são feitos tendo um mínimo de mecanismos cénicos (uma vez que estes são caros), ou seja, fazem-se projectos de teatros sem que estes tenham o potencial mágico que outrora os caracterizou. Fénix renasce assim das cinzas, disforme e irreconhecível: destroem-se teatros ao recuperá-los, ou constroem-se teatros tecnicamente inoperantes. Urge que em Portugal se tome a consciência que um teatro é um todo complexo; que não termina no proscénio, mas que, pelo contrário, começa do proscénio para trás. Urge que, independentemente das questões estéticas, se salvaguardem as questões técnicas e cénicas que tornam os espectáculos possíveis. A especialidade de Arquitectura de Cena, que em Portugal ainda dá os seus primeiros passos é indispensável no projecto de salas de espectáculos. Resumidamente, esta especialidade visa garantir a eficácia dos espaços cénicos, permitindo a máxima liberdade criativa a todos os intervenientes dos espectáculos, tornando assim possíveis, de novo, a magia e a ilusão.   © Paulo Prata Ramos. Não pode ser copia ou reproduzido, em todo ou em parte sem autorização expressa do autor. |
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