>> Artigos [ O Elevador de São Jorge, a demolição da Torre de Belém e o Big Brother ]

Artigo de opinião publicado no site da Oninet, Fevereiro de 2001

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Muito se tem falado na “imagem da cidade”, na “agressão” que o Elevador de São Jorge poderá constituir para os “alfacinhas”, nos percursos “naturais” de acesso ao Castelo e num “indispensável” referendo. Ora vejamos.

A imagem da cidade, a demolição da Torre de Belém e o referendo de Tavira

A cidade é um organismo vivo – mesmo que tentem impedi-lo por referendo. A cidade muda, cresce e desenvolve-se, devendo ser o reflexo da sociedade que nela vive. Se a sociedade se deixar prender à “imagem da cidade”, pretendendo torna-la estática, estará a condenar-se a si própria a não evoluir.

Faz tanto sentido não querer agora o elevador de São Jorge, porque fere a “imagem da cidade”, como não querer que o Castelo tivesse sido construído, porque feria a imagem da colina, ou que a Torre de Belém não tivesse sido erigida à beira rio, ferindo a paisagem, por certo mais bela antes da sua construção. Devemos agora repor uma verdade histórica e propor a demolição destes edifícios, ou devemos estar agradecidos aos nossos antepassados por não terem ficado presos a uma imagem imutável da cidade.

A cidade (ou a sociedade) deve respeitar a história e o património sem nunca deixar de aceitar o que é novo. Compreender a história é ver que esta é feita de mudança, de um constante romper de laços com o passado. Respeitar a história e a sua essência – a permanente mudança – é não querer que o amanhã seja igual ao hoje. Devemos intervir na cidade hoje, sem medo, construindo a sua imagem de amanhã. Tudo o que é novo faz parte da imagem da cidade; basta deixar correr algum tempo, que normalmente nem chega a ser o tempo de uma geração. Veja-se o exemplo paradoxal do depósito de água de Tavira. Em tempos foi construído um depósito de água em betão – um ”mamarracho” – numa zona histórica de Tavira, contra a vontade da população. Recentemente, a Câmara Municipal pretendeu demoli-lo, construindo um parque no seu lugar. Os habitantes protestaram porque já estavam habituados ao depósito que entretanto se tinha torna parte das suas memórias. Realizou-se o primeiro referendo autárquico em Portugal, e o ”mamarracho”, que à data da sua construção feria a “imagem da cidade”, foi mantido.

As mudanças arquitectónicas como elementos formadores da sociedade

Como se disse, a cidade deve ser o reflexo da sociedade que nela vive. Mas a cidade também se pode transformar de forma mais ou menos autónoma, “moldando” a sociedade. É disso um exemplo notável o Centre Pompidou, que em 1977, envolto em grande celeuma foi construído no bairro histórico de Beaubourg, no centro de Paris.

A cidade adaptou-se, e a praça sobranceira ao edifício passou a ser um local de referência na cidade, pela sua dinâmica e animação. É impossível imaginarmos Paris sem o Pompidou; quem por lá passou quando o edifício esteve encerrado para obras, terá sentido que Beaubourg ficou tristonho e sem vida.

Criar elementos novos em zonas históricas é criar tensões/interacções que revitalizam os tecidos urbanos. No caso particular, o elevador poderá ser o primeiro passo contra a crescente desertificação da baixa pombalina, trazendo ao local uma nova vivência e dinâmica.

A agressão aos cidadãos

Tem-se dito amiúde, que o elevador é uma agressão aos cidadãos. Talvez seja, para alguns. Esses têm bom remédio: podem ignora-lo, olhando para o lado e equecendo que existe. Mas há outras agressões, quotidianas e bem mais graves, de que não se houve ninguém falar.

Nos conselhos limítrofes de Lisboa, o crescimento urbano é desenfreado, frequentemente desrespeitando a legislação em vigor, sendo notória a corrupção do sistema. Criam-se bairros sem áreas verdes ou zonas de lazer, sem parqueamento e sem qualquer qualidade urbanística. Os governos mudam leis a favor do imobiliário permitindo a sua expansão – veja-se a recente da alteração da lei que permite o corte de sobreiros, feita “à medida” da expansão imobiliária na margem sul do Tejo. O crescimento da população não é acompanhado pelo crescimento de postos de trabalho junto às áreas de residência, obrigando as populações a “movimentos pendulares”, sofrendo a “agressão” das filas em hora de ponta e dos transportes públicos sobrelotados.

Contra estas e outras agressões, a que é impossível fechar os olhos, pouco se fala. E assim, dia a dia, hora a hora, vamos deixando que nos agridam sem que nada façamos. Seria mais positivo que quem se opõe ao elevador – cidadãos, políticos e média – canalizassem a sua energia e voluntarismo a combater estes problemas, muito mais graves e generalizados.

Os vícios da democracia

Fala-se muito no referendo. Pois, bem. E se na altura se tivesse referendado a pintura de Picasso. Por certo os eleitores não se compadeceriam das mulheres que ele pintava, com caras retorcidas e corpos disformes. Provavelmente obrigaríamos Picasso a pintar paisagens mediterrânicas, com uns barquitos no mar sob um céu azul resplandecente. A democracia teria conduzido à hegemonia popular, à morte da cultura. E é isto que estão agora tentar fazer. De tanto valorizar a vontade popular, temos como consequência recente o Big Brother e os Acorrentados em horário nobre. Passámos do princípio democrático e louvável do referendo para a ditadura da maioria, para o populismo.

Se querem um referendo façamo-lo, mas daqui a cinquenta anos, já com o elevador construído. E à pergunta “devemos demoli-lo”, os cidadão de mentes esclarecidas como os que hoje pretendem impedir a sua construção dirão: “não – o elevador faz parte da nossa memória, da nossa imagem da cidade”.

 

© Paulo Prata Ramos. Não pode ser copia ou reproduzido, em todo ou em parte sem autorização expressa do autor.

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